Scott Cooper entrega uma cinebiografia simples, mas eficaz, que mergulha na vulnerabilidade de Bruce Springsteen e na criação de seu disco mais íntimo, “Nebraska”.
Dizem que sem se doar, a gente não conquista nada. Esse ditado resume perfeitamente como o cantor Bruce Springsteen lidou com sua carreira. Autor de grandes sucessos, como “Born to Run”, “Darkness on the Edge of Town”, “The River”, “Born in the U.S.A.” e “Nebraska”, Springsteen tem sua trajetória narrada em “Springsteen: Salve-Me do Desconhecido”, nova cinebiografia musical que segue a trilha aberta no gênero, recentemente, por “Bohemian Rhapsody” (2018).

Springsteen: Salve-Me do Desconhecido I Disney
Baseado no livro “Deliver Me from Nowhere: The Making of Bruce Springsteen’s Nebraska” (2023), de Warren Zanes (“Petty: A Biografia”), o longa da vez acompanha o processo criativo por trás do álbum mais íntimo do artista.
Na trama, após encerrar a turnê “The River”, Bruce (Jeremy Allen White) mergulha em uma crise emocional, marcada por lembranças dolorosas e traumas não resolvidos. Em busca de alívio, ele decide se isolar — e é nesse retiro que nasce o álbum que mudaria o rumo de sua carreira.

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De início, a escolha por esse recorte específico se mostra bem acertada. Centrado na pressão que Springsteen sofreu para finalizar o disco “Nebraska”, algo que o levou à beira do esgotamento emocional, o foco na sobrecarga e no conflito interno do artista dá força à narrativa, que apesar simples, é bem executada.

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Recheado de influências do rock da época, Springsteen canaliza em suas letras uma profunda reflexão sobre si mesmo e sobre a América dos anos 1980. “Nebraska” torna se, assim, um retrato de sua depressão e do colapso emocional que enfrentava — algo que ele só revelaria publicamente décadas depois. As referências literárias e musicais que o inspiraram se entrelaçam ao contexto social e político, moldando o álbum seguinte e, de certa forma, toda a sua trajetória posterior.
Ao escolher esse período como foco, o cineasta e roteirista Scott Cooper (“Coração Louco”) acerta em cheio. Ao explorar a saúde mental do músico e suas memórias de infância marcadas por um pai violento, Cooper encontra espaço para equilibrar o drama íntimo com a celebração musical. Sua direção reflete próprio estilo musical de Springsteen – melancólico, poético e repleto de imagens simbólicas.O uso do preto e branco nas cenas do passado é especialmente interessante, reforçando a sensação de memória e distanciamento emocional. Um dos momentos mais inspirados ocorre quando passado e presente se misturam, com Bruce cantando “Nebraska” enquanto assiste, ao lado do pai, ao clássico filme “O Mensageiro do Diabo” (1955), de Charles Laughton (“O Grande Motim”).

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Essa opção por um ritmo mais contemplativo, sem correr para enumerar fatos e conquistas, é o que diferencia “Salve-Me do Desconhecido” das cinebiografias convencionais. Ainda assim, sente-se falta de um pouco mais de música ao vivo. Poderia haver mais shows — o ícone Springsteen acaba deixado um pouco de lado em favor do homem por trás da lenda, especialmente no retrato da relação com o pai.
No elenco, Jeremy Allen White (“Garra de Ferro”) é ótimo. O ator encarna com naturalidade os dilemas de Bruce, traduzindo em gestos e olhares a tensão de um homem dividido entre a necessidade de criar e o peso do próprio nome. Pode não ser fisicamente idêntico ao músico, mas captura sua essência com precisão: o timbre da voz, o jeito de andar, as expressões faciais e, sobretudo, a intensidade emocional nas performances musicais. Em performance, ele também não decepciona, pelo contrário, especialmente nas cenas em que canta “Born to Run” e “Born in the U.S.A.”.

Springsteen: Salve-Me do Desconhecido I Disney
Jeremy Strong (“O Aprendiz”), como Jon Landau, também está muito bem — ainda que dentro de seu estilo clássico. Ele confere humanidade e equilíbrio ao parceiro de Bruce, transformando-o na voz da razão em meio ao turbilhão interno do artista. Odessa Young (“O Professor”) traz sensibilidade à personagem Faye, representando os amores e desilusões do período, enquanto Paul Walter Hauser (“O Caso Richard Jewell”) empresta carisma a Mike Batlan, o engenheiro que registrou “Nebraska” em uma fita cassete dentro de um quarto.

Springsteen: Salve-Me do Desconhecido I Disney
Diferente das cinebiografias que buscam o espetáculo, “Springsteen: Salve-Me do Desconhecido” é uma experiência mais intimista e melancólica, como o próprio álbum que retrata. Até mesmo as cenas de shows são discretas, muitas vezes interrompidas, refletindo o desejo do artista por introspecção. Cooper explora essa recusa do espetáculo como parte da narrativa — a mesma recusa que levou Springsteen a lançar “Nebraska” separadamente de “Born in the U.S.A.”, apesar de terem sido compostos juntos. Essa escolha se torna um símbolo da dualidade entre a glória pública e o caos interno.
No fim, “Springsteen: Salve-Me do Desconhecido” é uma obra que reflete o espírito de seu biografado: intensa, honesta e apaixonada. Em meio a tantas cinebiografias formatadas, o filme se destaca por unir emoção e comprometimento, qualidades que definiram tanto a relação entre Bruce Springsteen e Jon Landau quanto a própria força do cinema de Scott Cooper. Um retrato sensível de um artista que, ao confrontar seus fantasmas, encontrou não apenas sua voz, mas também sua verdade.
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