Idealizado por James Gunn, Pacificador retorna mais introspectiva e irregular, tentando conciliar o caos criativo com o peso de fundar um novo universo cinematográfico.
Quando James Gunn foi demitido da Marvel em 2018 por conta de tweets antigos, poucos imaginavam que, poucos anos depois, ele seria o principal responsável por reerguer o universo cinematográfico da DC. Com um humor ácido, personagens quebrados e uma visão autoral rara em grandes estúdios, Gunn transformou o que poderia ser o fim de sua carreira em um renascimento criativo, iniciando, sob sua liderança, um novo capítulo para DC com produções como Comando das Criaturas (2024), Superman (2025) e a aguardada segunda temporada de Pacificador.
A série retorna tentando equilibrar o tom debochado e violento que a consagrou com uma abordagem mais dramática e conectada ao novo DCU. O primeiro episódio já realiza um rápido, porém essencial, retcon, apagando participações de versões antigas de Aquaman (Jason Momoa) e Flash (Ezra Miller) e realocando a narrativa dentro do novo universo introduzido em Superman, resultando em uma temporada que, embora mantenha o DNA irreverente da original, se vê pressionada por uma função que talvez nunca tenha pedido: ser um dos pilares de um universo compartilhado.
O tom permanece adulto e provocativo, com a violência e a sexualidade sendo exploradas de forma ainda mais explícita. A controversa cena de orgia logo no episódio de estreia funciona quase como uma assinatura de Gunn: um aviso de que o absurdo ainda é sua principal ferramenta narrativa, porém, entre o caos e a piada, Pacificador encontra momentos de introspecção genuína, principalmente ao explorar o trauma e o senso de culpa de Christopher Smith, um homem atormentado pelos fantasmas do passado.

Elenco de Pacificador em cena da temporada- Divulgação HBO MAX
A nova temporada se aventura pelo repetitivo conceito de multiverso, um tema que o cinema recente já desgastou até o limite, porém, Gunn o aborda de maneira mais orgânica, utilizando a chamada “Terra 2” (ou “Terra X”) como uma fuga emocional para o protagonista. O que começa como uma chance de redenção se transforma em uma distopia comandada por nazistas, numa virada que, embora previsível, é conduzida com energia e sátira política, porém, entre idas e vindas, a narrativa perde ritmo e não apresenta todo o potencial deste universo, tropeçando em subtramas como a “cegueira de pássaros” e a subtrama de Eagley, que soa mais como enfeite, e um capricho de Gunn para Michael Rooker, do que como construção dramática.
Enquanto isso, o elenco segue afiado. John Cena entrega novamente uma performance surpreendentemente emocional, equilibrando brutalidade e vulnerabilidade, enquanto Jennifer Holland ganha mais espaço e contribui para o lado mais humano da trama. Ainda assim, o roteiro demora a aproveitar o potencial destas relações, separando seus personagens que funcionavam tão bem como equipe e guardando as grandes revelações para os episódios finais, que se apressam em resolver tudo com longas cenas de terapia e redenção coletiva.
Esteticamente, Pacificador mantém o estilo característico de Gunn, trilha sonora repleta de rock setentista, cortes dinâmicos e uma paleta de cores saturada que reforça o tom de quadrinhos adultos, porém, ao contrário da espontaneidade da primeira temporada, há aqui uma sensação de controle excessivo. A série parece seguir uma cartilha de construção de universo, com ganchos e conexões pensadas mais para o futuro do DCU do que para a força narrativa do presente, como visto ao final do último episódio e do arco de Rick Flag.

John Cena em cena de Pacificador- Divulgação HBO MAX
No fim, Pacificador – 2ª temporada é um capítulo sólido, mas menos empolgante, na trajetória de Gunn. Apesar de ser um contador de histórias eficiente, capaz de unir vulgaridade e emoção com uma sensibilidade rara, atualmente carrega nas costas o peso de estruturar um novo universo cinematográfico, sem perder o frescor ou a originalidade de um sub gênero que cada vez mais está se desgastando.
Gunn entrega um prato conhecido, o mesmo “arroz com feijão bem feito” que sempre agrada, mas a repetição começa a se tornar perceptível.
A DC, ainda em seus primeiros passos de reorganização, precisa decidir se quer um universo construído sobre o caos criativo de Gunn, que em pequenas doses é muito bem aceito, ou algo que o expanda para um fundo mais dramático e poético, porque, mesmo com boas intenções e momentos de brilho, o Pacificador desta temporada parece mais um soldado de um império em formação do que o anti-herói imprevisível que um dia desafiou tudo e todos, e que realmente gostávamos.


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